Adequando idéias

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“O limite do que pode ser dito é dado pelo limite do que pode ser pensado.” Há uns dias um amigo veio me lembrar que há tempos disse a ele esta frase para defender não lembro qual ideal maluco de liberdade.

Não explicarei a estupidez dessa antiga idéia minha, ela é clara: Experimente começar a dizer tudo que te vem à cabeça e no dia seguinte tu estará na cadeia, ou no hospício. Também não vou entrar no que pode ser pensado. O que pode ser pensado? Que pergunta difícil! Há um conjunto do que de alguma forma entra em nossa mente e outro conjunto, que contém o primeiro?, do que nem pela imaginação podemos por uma greta vislumbrar? E pensar algo é colocar em palavras um entendimento do visto ou imaginá-lo basta para ser pensar? Deixemos. Acrescentarei outro verbo: o que PODE ser pensado é o que DEVE ser pensado?

Pois bem, considerarei a língua no que vejo sua função mais simples e fundamental: um apontador para a realidade. Se estou numa caçada ancestral com membros de meu grupo tribal e vejo um leão, posso apontar para ele. Meus companheiros vêem meu dedo e seguem a linha imaginária que se estende a partir dele e chegam a um leão. Aí é um “corre, gente!” (parece que os vetores surgiram em nossa mente antes dos números…)

Posso fazer o mesmo com palavras: “um leão à nossa direita!”. O muito que há além disso é generalização do grito de aviso por um leão. Neste texto mesmo estou avisando de um leão bem sorrateiro e perigoso. Uso a língua para apontar uma realidade e, se o faço, sou comum e são; se o faço, tento falar do que existe e é condição de existência minha e de meu próprio falar, a realidade.

Mas a língua pode se referir ao que não está na realidade e pode até, pelo que ando ouvindo há tempos, a coisa nenhuma, ou só a si mesma. Então, a língua é instrumento para apontar a realidade, mas algo mais. Um exemplo claríssimo para meus amigos das Exatas é a relação entre matemática e física. A física se serve da matemática, mas a matemática pode mostrar conceitos e consequências das premissas assumidas e das condições de contorno que não têm sentido físico. Quem já fez o ensino médio vê isso ao resolver equações de movimento uniformemente variado: você resolve a famosa equação de movimento S = So + Vot + att/2 e acha, às vezes, um t que é negativo. Aí o professor te diz que não existe tempo negativo e você despreza aquele resultado como irreal.

Onde quero chegar? Aqui: a realidade é o que é e por isso está definida, já o que não é real é o não ser e não está definido. O definido é uno, é um, o indefinido é infinito. Uma mesa é uma mesa, mas existem infinitas coisas que uma mesa não é. É muito mais fácil a língua cair num referente inexistente, que são infinitos, que cair num referente existente, que é um só.

Lembrando de Santo Tomás, para quem “a Realidade e a Verdade convertem-se uma na outra”, vejo que é muito mais fácil dizer o que é mentira do que dizer o que é verdade. Se faço uma afirmação “um triângulo tem 3 lados”, é uma verdade, mas existem infinitas formas de afirmar sobre número de lados de triângulos com mentiras, basta colocar na forma “um triângulo tem n lados”, com n > 3, e pronto, uma só verdade, infinitas mentiras.

Afirmar que algo é o que não é é facílimo, pois o que algo não é é infinito, mas o que algo é é uma coisa só. Mas, pergunto, o que caracteriza o louco? Lembrando de Chesterton, lá no comecinho de Ortodoxia: “O louco não é o homem que perdeu a razão. Louco é o homem que perdeu tudo, menos a razão.” Um louco mantém sua capacidade de afirmar, de usar a linguagem para apontar coisas, mas o louco perdeu o mundo, perdeu a realidade, aponta o que não é real e toma o apontado, pela mera capacidade de apontar, de tornar linguagem, por real. Perdeu o uso da linguagem para mostrar o um que é e usa-a para apontar os vários que não são.

Então, está aí o limite do que deve ser pensado: o que é real, o que continua na existência, seja concretamente ou o que a alimenta. Quem pensa tudo que pode pensar está num ensaio para a loucura porque é muito fácil, pela infinitude do pensar o que não é real, e logo não é verdade, acabar acreditando em si mesmo, acabar acreditando que alguma daquelas infinitas coisas que não são verdadeiras é verdadeira apenas porque conseguiu pensá-la, ou pode perder-se nas infinitas inverdades. Olavo de Carvalho sintetiza isto numa frase: “O homem medíocre não acredita no que vê, mas no que aprende a dizer.”

Aquele que acredita sempre no que pensa tem uma só maneira de manter a sanidade, “um triângulo tem 3 lados”, e infinitas maneiras de ser louco, “um triângulo tem n lados, com n > 3”. É pouco provável que consiga segurar-se na realidade… Quantos, entrando no plano infinito do muito que conseguiam conceber, acabaram por criar paredes de linguagem e jamais voltaram desse labirinto para a realidade, jamais acertaram reconhecer a verdade.

Manter o pensamento controlado para não fugir da realidade é manter-se são. Deixar-se entrar pelo imenso que é possível pensar é flertar com a loucura. Nem o que podemos dizer é o que podemos pensar, nem o que podemos pensar é o que devemos pensar.

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