Estranhamentos Iniciais

Olha, são 10 Ave Maria, 1 Pai Nosso e 1 Glória para cada Mistério. São 5 Mistérios por Terço. 4 Terços formam um Rosário. Eram 3 Terços, São João Paulo II acrescentou outro, os 5 Mistérios Luminosos. 200 Ave Maria por Rosário. Mas começa-se com o Credo, depois 1 Pai Nosso, seguem-se 3 Ave-Maria e 1 Glória. Ao fim, 1 Salve Rainha. (Coloquei o nomes das orações sem flexão de plural. Plural de nome de oração é feio).

Estranhamento quase certo de quem chega à Igreja: “Por que é tudo tão esquemático, tão roteirizado?” Não sei responder a esta pergunta, mas posso fazer um exercício de busca de entendimento: Chama-se Reductio ad Absurdum e é muito usado na matemática. Pega-se uma proposição, nega-se-a e, encontrando uma consequência absurda da negação, conclui-se que a proposição estava correta. Usarei uma analogia desse tipo de raciocínio.

Primeiro afirma-se que não pode ser assim, isto é, que não pode haver roteiro nas ações devotas, nas ações que se direcionam a Deus. Então busquemos as razões dessa afirmação, “Não pode haver roteiro numa ação que se dirige a Deus” :

1. A Religião se contrapõe ao mundo secular e este é o império da técnica, da objetividade fria que cataloga ações segundo o resultado que o conjunto delas produz. Quem constrói um prédio tem os esquemas e roteiros do que fazer e como fazer para o resultado ser um prédio.

2. Quem busca a Deus deve se entregar totalmente à Vontade Dele e então rompe, na relação com Deus, com os esquemas postos que funcionam no mundo secular. Sendo Deus imenso e Sua Vontade não totalmente acessível ao homem, deve o homem deixar-se guiar apenas pela Vontade Divina sem fazer planos de como agir, pois o plano subentende a vontade humana.

Então, segundo esse raciocínio, a religião deveria romper com a objetividade do mundo e seguir diferente caminho. Pensa-se: “Se tudo é em e por Deus e Ele é maior que tudo, qualquer tentativa de agir segundo a Vontade Dele não pode fixar-se em roteiros e esquemas, pois é Ele e não nós Quem diz em que e como agir.” Essa é a idéia, a regra geral. A realização dessa idéia é o apreço pela total espontaneidade. O oposto do ter as ações roteirizadas é o agir espontaneamente, sem que a cada passo se saiba do passo seguinte. Esta é a primeira conclusão da afirmação “Não pode haver roteiro numa ação que se dirige a Deus”.

Se se aceita a forma de ver exposta acima, forçoso é afirmar que Deus nos comunica a todo instante Sua Vontade para que a sigamos no instante seguinte. Não havendo possibilidade de fazer planos e roteiros na oração e nos demais atos da devoção e vida cristã, estando a alma entregue ao que à vista externa soa espontaneidade necessária pela ausência de roteiros, sendo cada passo não planejado durante o passo anterior, cada Ave Maria rezada não sabendo-se se será a última ou a centésima antes da última, cada ato traz em si a total ignorância do ato seguinte e espera pela voz divina, indicando o próximo.

Então, o ato de devoção é incerto e espera pela informação do próximo ato. É uma análise da idéia. Convém observar um fato: Na realidade não vemos uma revelação ou iluminação constante, não vemos a iluminação de que devemos rezar tanto tempo e de tal forma a toda hora, mas a ausência de roteiro e formas fixas de oração exige a comunicação da Vontade Divina a todo tempo. Então, o onde somos forçados a chegar, para se manter fixo na idéia de revelação constante, necessária para a ausência de roteiros, recorremos àquilo que em nós a todo momento pode variar e identificamos como revelação ou iluminação, afinal estas também apontam a cada manifestação um caminho a seguir na maioria das vezes a nós desconhecido.

Vamos  então em busca do que variando toma a forma de uma revelação divina por trazer em si uma característica de revelação, de apontar um novo caminho, uma nova e seguinte ação, e que mais facilmente pode ser percebido e primeiro encontramos e por logo encontrar já nos damos por satisfeitos: Os sentimentos.

Atribuímos ao sentir a Voz de Deus. Perigoso pensar! Identificar sentimentos, o que em nós é mais enganoso e sujeito às circunstâncias, com Vontade Divina é unir num mesmo estatuto o mais Elevado ao mais baixo e dar Àquela a forma e essência deste. Neste vídeo, que não é especificamente sobre este tema, Padre Paulo Ricardo explica a hierarquia entre Intelecto, Vontade e Sentimento e como estão envolvidos na oração: “164- Devo ir à missa por pura obrigação?” 

Chega-se então ao absurdo de considerar Vontade de Deus os nossos sentimentos pela negação de que se pode fazer roteiros para os atos dirigidos a Deus, como a oração. Vendo, então, essa consequência do imaginar que a vida espiritual é antagônica à razão, à racionalidade, ao planejar, roteirizar, podemos desconfiar que a razão é sim parte da vida cristã, algo explicado pelo Padre Paulo Ricardo no vídeo acima.

Agora chega a parte difícil sobre que disse não ter resposta: como, partindo da afirmação de que as orações podem e devem ser contadas, esquematizadas, decoradas, mostrar, sem recorrer às consequências da negação da afirmação, tal qual tentado, que isso é mesmo assim.

Uma percepção ainda não bem elucidada: Deus é Criador, criador de nós, do mundo e universo, coisas materiais, mas também criador do tempo, do espaço e da razão. Se criou Deus a razão e ela em tanto se mostra, por que exatamente nos atos que fazemos para nos conformar à Vontade de Deus ela deveria ser excluída? Por que naquilo que nós, criaturas, fazemos para nos voltar para o Criador e para honrá-lo deveríamos considerar como impuro ou meramente humano e desagradável exatamente o que Ele criou para que entendêssemos que Ele é o Criador?

Uma tentativa de clarear algo que causa estranhamento em pessoas que, como eu, vieram do protestantismo e ateísmo. Mas é uma busca de entendimento, não vincula. Reza-se o Rosário porque assim manda a Santa Igreja e isso basta.

Adendo: Se tentamos identificar o sentir com a sinceridade, encontramos outro problema, problema com maestria definido por Olavo de Carvalho: “… Não adianta falar de sinceridade para uma pessoa que não sabe o que é ser sincera. Tem gente simplesmente que acha que ser sincera é dizer o que você pensa na hora. Ora, dizer o que você pensa na hora, é simplesmente desempenhar o papel que naquele momento você se atribui no seu teatro mental; isso não é sinceridade. Sinceridade é você confrontar os seus vários pensamentos e emoções diferentes, toda sua tensão interior, e você ter que arbitrar aquilo. […] Todos nós temos uma gama interior, um leque inteiro de impulsos contraditórios, e nós temos que arbitrar entre eles, harmonizar, combinar, etc. Isso é a prática de tornar-se gente.” A Sinceridade está bem mais perto da razão, do intelecto, que do sentir…

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2 comentários sobre “Estranhamentos Iniciais

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