Relacionar-se com Deus

 

Renato Russo, em uma das suas músicas, fala sobre sentir uma saudade do que ele ainda não viu e Santo Agostinho afirma ter um coração inquieto, e que inquieto ele permanecerá enquanto não puder repousar em Deus.

É bem fácil perceber que ambos falam do vazio infinito do nosso coração, que só pode ser preenchido por um Bem infinito; basta notarmos o quanto desejaremos algo a mais  logo depois de ter algum desejo satisfeito.

Temos sede de um Bem infinito e esse é um dos principais motivos para nos relacionarmos com Deus. Só seremos preenchidos quando todas as nossas realidades se passarem com Ele.

Além disso, temos uma necessidade de sentido que nada nem ninguém conseguem nos dar. Quando pensamos em algo que fazemos e nos perguntamos sucessivos “porquês” ou “para ques”, vemos que não basta. Por exemplo, estudamos para entrarmos em uma faculdade, para sermos bons profissionais, para termos um bom trabalho, para termos um bom salário, para ter aquilo que queremos… Mas e depois? Nunca será suficiente! Somente com uma visão sobrenatural da nossa realidade ordinária é que podemos encontrar sentido para nos esforçarmos na busca pelo bem.

Por fim, somente Deus pode nos dar a segurança que precisamos; como é fácil perder o equilíbrio se não confiamos que temos Alguém por nós, que nos guarda a todo instante porque tem poder sobre todas as coisas e que sabe o que faz, mesmo quando as coisas estão, aparentemente, indo de mal a pior. Assim como uma criancinha tem necessidade de ter os pais por perto, nós também temos necessidade de Deus.

Mas o que é relacionar-se com Deus?  Relacionar-se é estabelecer uma ligação com alguém e com Deus não é diferente, de forma que a melhor maneira de o fazermos é tratá-Lo como amigo, como nosso melhor amigo que está sempre disponível e interessado em todas os nossos  assuntos, que nos conhece como ninguém e por isso, podemos afirmar que nos ama incondicionalmente.

Ser amigo é partilhar a vida, dar e receber:  ter uma relação de coração a coração que é mantida através do diálogo. Existem várias maneiras de dialogarmos com Deus, a freqüência nos sacramentos para os católicos, a oração mental, a oração vocal, e, como somos seres dialógicos, podemos passar toda a nossa vida conversando com Deus que nos vê, que escuta e nos responde sempre.

“Não sabes orar? Põe-te na presença de Deus, e logo que começares a dizer: ‘Senhor, não sei fazer oração! ’ podes ter certeza que começaste a fazê-la”, nos diz São Josemaria Escrivá, e continua o conselho dizendo “Orar é falar com Deus. Mas de quê? – De quê? Dele e te ti: alegrias, tristezas, êxitos e fracassos, ambições nobres, preocupações diárias…, fraquezas! e ações de graças e pedidos; Amor e desagravo. Em duas palavras: conhecê-Lo e conhecer-te – ganhar intimidade!”

E assim, fazemos nossa oração mental, nutrindo essa Divina Amizade.

A igreja também nos oferece uma infinidade de orações vocais, como por exemplo, a recitação do Santo Terço, do Ofício a Imaculada Conceição, a Liturgia das Horas… que são formas de entregar-nos a Deus. Além disso, as palavras ditas deixam marcas em nossas almas que vão nos moldando pouco a pouco, mas, atenção, de novo São Josemaria nos aconselha e diz:

“Devagar. – Repara no que dizes, quem o diz e a quem. – Porque esse falar às pressas, sem lugar para a reflexão, é ruído, chacoalhar de latas. E te direi, com Santa Teresa, que a isso não chamo oração, por muito que mexas os lábios.”

São muitos os frutos que colhemos da nossa amizade com Deus. C.S Lewis diz que cada amigo desperta algo de nós mesmos que somente ele é capaz, de forma que quando perdemos uma amizade, perdemos também um pouquinho de nós. Se amigos debilitados como nós são capazes de despertar lados escondidos da nossa personalidade, o que não seria Deus capaz de despertar em nós, não é mesmo?

Ao relacionarmos com Deus, nos tornamos mais bem resolvidos, pois é Ele mesmo quem nos aconselha e nos indica qual caminho seguir e, sabendo-nos no caminho certo, nos tornamos mais fortes e seguros, capazes de lidar com todas as circunstâncias que encontraremos.

Aprendemos dEle a nos relacionarmos melhor com os demais. Pra se dar, é preciso se ter e a amizade com Deus faz com que nos conheçamos mais, ajuda-nos a combater nossos maus hábitos e crescer em virtudes, nos tornamos pessoas mais pacientes e amáveis e, como conseqüência, mais fáceis de relacionar.

C.S Lewis fala também que uma boa amizade consiste em amar as mesmas coisas e rejeitar as mesmas coisas. Levando em conta que Deus é o Amor e nEle não há mal algum, que honra seria  termos  o título de amigos de Deus!

Contudo, hoje em dia, com nossas horas preenchidas de compromissos e distrações, é cada vez mais difícil nos conectarmos com nós mesmos e com Deus; quando conseguimos um pouquinho de silêncio exterior, a nossa mente parece adquirir vida própria e se recusa a se fixar naquele momento, nos bombardeando com pensamentos que, por vezes, não fazem sentido algum. Parece incrível, mas basta decidirmos nos concentrar no diálogo com Deus (ou no nosso dever) para nos lembrarmos de todos os compromissos que temos, de dar parabéns pra amiga que faz aniversário, do jingle da farmácia que ouvíamos há mais de 10 anos,  e até uma parede branca passa a ser mais atrativa do que o que nos propusemos a fazer.

Por isso, é importante abolirmos a nossa idéia de oração perfeita. Deus não se incomoda com nossas distrações se nos esforçamos para nos mantermos na presença dEle; incomoda muito mais a nós, com o nosso orgulho ferido ao constatarmos que realmente “fazemos o mal que não queremos, mas não conseguimos fazer o bem que queremos”.

Para conseguirmos nos interiorizar e estar na presença de Deus é preciso de um pouquinho de sacrifício para que sejamos capazes de perseverar.  Será necessário mortificarmos nossa inquietude, a curiosidade de olhar o celular para nos atermos aquele momento, nos esforçarmos ao máximo para controlar a imaginação (mesmo que às vezes todos os nossos esforços pareçam inúteis)… Deixar de lado todas as nossas vontades bobas e nossas mesquinharias para estar com Ele por inteiro e em paz.

Peçamos ajuda a Nossa Senhora e a São José, mestres da oração, que passaram a vida num diálogo intenso de amor com Cristo. Certamente, amparados por eles, seremos capazes, também nós, de vivermos cada instante ao lado dEle.

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